ModaLisboa Pebbling: Sangue Novo revela cinco designers emergentes que estão a marcar o futuro da moda portuguesa

A edição 66 da Lisboa Fashion Week inaugurou a passarela do Pátio da Galé, no dia 13 de março de 2026, com o desfile dos cinco finalistas do concurso Sangue Novo.

Alexandre Azevedo

A edição 66 da Lisboa Fashion Week inaugurou a passarela do Pátio da Galé, no dia 13 de março de 2026, com o desfile dos cinco finalistas do concurso Sangue Novo. A iniciativa foi mais uma prova de superação para estes criadores emergentes, que se estrearam no ambiente dos desfiles destinados aos nomes consagrados da moda portuguesa.

As propostas das suas coleções para o outono-inverno 2026/27 reuniram os critérios imprescindíveis de participação, como processos digitais e artificiais de produção; a modelagem de novos materiais; inovação e compromisso com a sustentabilidade.

Os cinco finalistas a concurso foram conhecidos em outubro de 2025: Adja BaioAriana OrricoMafalda Simões, Mariana Garcia e Usual Suspect apresentaram o resultado da sua maturidade comercial e artística, desenvolvido durante o último semestre com o acompanhamento e mentoria do painel de jurados.

Através dos projetos apresentados, a Moda transforma-se em base da sociedade ao centralizar o desenvolvimento das criações numa análise a diversos temas contemporâneos e ao explorar o saber-fazer artesanal como ponto central das coleções apresentadas.

Nesta segunda fase do concurso, os membros do júri não devem ter tido uma tarefa fácil. O painel composto por Miguel Flor, Joana Jorge, Anastasia Bilous, Federico Cina, Federico Poletti e Filipa Homem analisaram o talento, autenticidade e rigor técnico dos participantes.

Em seguida, neste artigo, conhece os prémios dos vencedores do Sangue Novo e as coleções de todos os finalistas.

Vencedores do Sangue Novo

O concurso Sangue Novo já conhece os vencedores desta edição. Os jovens designers selecionados pelo painel de jurados foram Mafalda Simões e Ariana Orrico.

Luís Miguel Fonseca

Depois da avaliação atenta das coleções dos 5 finalistas, o júri do concurso ­distinguiu Mafalda Simões com o prémio ModaLisboa x IED Instituto Europeo di Design, o que permite a participação no Master’s Program em Fashion Design no IED Roma ou Fashion Marketing no IED Milano e uma bolsa de 4.000 euros.

Ariana Orrico conquistou o prémio Prémio ModaLisboa x Burel Factory, que lhe dá a oportunidade de residência criativa de 1 mês na Burel Factory, permitindo o desenvolvimento de peças em materiais da marca e a sua apresentação numa coleção em nome próprio na plataforma Workstation da ModaLisboa – Lisboa Fashion Week e uma bolsa de 1.000 euros.

As duas vencedoras beneficiam ainda dos serviços de assessoria de imprensa e showroom na agência de comunicação Showpress, durante uma estação.

Em seguida, conhece cada uma das coleções apresentadas.

Mafalda Simões

A coleção SOFT TISSUE – Bodies Under Pressure nasce de uma reflexão sobre a fragilidade e a resistência do corpo humano. Num momento em que criar implica lidar com incerteza e tensão, as peças exploram o corpo como um arquivo vivo de experiências, capaz de se magoar, adaptar e transformar, mas também de persistir e reinventar-se ao longo do tempo.

O tricô e o croché assumem-se como a linguagem central desta narrativa: pontos aparentemente delicados unem-se para criar estruturas flexíveis e protetoras, num processo artesanal lento e atento ao corpo, ao tempo e à matéria, privilegiando o uso de materiais naturais.

A paleta cromática move-se entre tons suaves e delicadamente combinados, que vão dos neutros aos rosas e azuis pastel, contrastando com apontamentos mais quentes, como o vermelho.

Em termos de construção, a coleção aposta em formas estruturadas e silhuetas clássicas com uma estética romântica, reinterpretadas através de uma abordagem criativa que lhes confere um carácter contemporâneo e irreverente.

Entre as peças que mais se destacam surge um vestido de manga comprida trabalhado em croché, cuja saia desenha a silhueta feminina de forma subtil e elegante, evidenciando a delicadeza e a técnica artesanal presentes em toda a coleção.

Ariana Orrico

Num exercício contínuo de questionamento dos limites da masculinidade normativa, Ariana Orrico apresenta a coleção de menswear Macho Alfa. Partindo da ideia de que o género é também uma forma de performance, a designer coloca em destaque a figura do chamado “macho alfa”, um arquétipo associado ao poder e à autoridade. Tal como a peça central num jogo de xadrez, esta figura mantém a sua força através da crença coletiva no seu estatuto, revelando ao mesmo tempo uma fragilidade latente, onde um pequeno desvio pode transformar o domínio em vulnerabilidade.

A coleção outono-inverno 26/27 explora precisamente essa tensão entre virilidade e sensibilidade masculina. O couro, material tradicionalmente ligado à força e à masculinidade, surge reinterpretado numa abordagem mais fluida, fragmentada e informal.

A utilização de materiais naturais e de tecidos deadstock reforça ainda uma lógica de economia circular, enquanto técnicas como a malha manual, o tricot de couro e o patchwork seguem princípios de zero waste, unindo experimentação estética e consciência sustentável.

Adja Baio

A coleção PATAKERA surge como uma continuação natural do trabalho anterior da designer, aprofundando temas como identidade, corpo e excesso enquanto linguagem visual. O destaque vai para alguns elementos já característicos, como as tranças, o pano de pinti e as silhuetas oversized, que se mantêm presentes, agora colocados em diálogo com peças mais ajustadas que criam contraste, tensão e ritmo ao longo da coleção.

Segundo Adja Baio, o chamado “cafona” é aqui assumido como uma escolha estética consciente, explorado através do exagero, do ornamento e da acumulação de detalhes. As tranças passam a integrar a própria construção das peças, enquanto o pano de pinti é reinterpretado de forma contemporânea, reforçando a fusão entre referências culturais e design atual.

Entre volumes amplos e cortes mais estruturados, PATAKERA afirma-se como uma coleção autoral, visualmente forte, marcada por uma desconstrução entre o contemporâneo e o étnico.

Mariana Garcia

A coleção COTA 0.1 inspira-se no poema Hope is a Thing with Feathers, de Emily Dickinson, onde a esperança surge como uma força persistente e silenciosa. A narrativa parte também de uma imagem captada por Mateus Cunha, na qual uma mulher avança com determinação, enquanto o movimento do vestido reforça a ideia de continuidade. A referência à bailarina Loïe Fuller manifesta-se na forma como o tecido acompanha e amplifica o gesto do corpo, criando uma dimensão quase coreográfica nas peças.

Profundamente feminina, a coleção destaca-se por vestidos de silhuetas marcantes e fluidas, onde as transparências acrescentam leveza e movimento, reforçando a delicadeza das formas. Materiais industriais são também integrados nesta linguagem visual, como cintos de segurança reutilizados, escolhidos pela combinação entre aspeto limpo, suavidade e resistência.

Outros materiais, como guiadores cromados com defeito, encontrados na oficina do avô da designer, introduzem linhas estruturais e uma presença mais forte nas peças. A fotografia surge ainda como referência estética, posicionando-se entre a crueza do flash característica de Juergen Teller e a atmosfera etérea presente no trabalho de Rinko Kawauchi.

Usual Suspect

Na coleção Horas Extra, desenvolvida por Xavier Silva, mais conhecido como Usual Suspect, o designer reflete sobre o património individual como algo que se constrói diariamente, através do trabalho, da persistência e das escolhas feitas ao longo do tempo. Mais do que uma herança material, este património surge como um conjunto de experiências, aprendizagens e identidade moldadas pela prática e pela rotina.

Tudo isto, sugere a continuidade da figura do empregado, já presente na coleção anterior, Último Empregado; Horas Extra nasce da vontade de ir mais longe dentro dessa realidade. A proposta não passa por abandonar o trabalho, mas por ultrapassar as suas limitações, procurando uma realização que vai além do valor monetário e se afirma no plano profissional, pessoal e artístico. Nesta coleção, criar torna-se um gesto de afirmação e crescimento.

Essa narrativa reflete-se também na escolha dos materiais, o designer recorre a peças antigas suas e da sua família, recolhidas ao longo do tempo e reutilizadas como um verdadeiro arquivo físico da sua história. Ao integrá-las nas novas criações, constrói uma linguagem estética honesta e profundamente ligada ao seu percurso e às condições reais em que desenvolve o seu trabalho.

Inovação, Sustentabilidade, Criatividade

Os cinco finalistas desta edição do concurso Sangue Novo provaram que a inovação, sustentabilidade e criatividade são conceitos que conseguem desfilar entrelaçados na passarela.