Quando a natureza dita a tendência: be@t apresenta na ModaLisboa uma nova era da moda circular

O projeto be@t, promovido pelo CITEVE, subiu à passarela com a coleção Inspired by Nature, um manifesto visual que mostra como a bioeconomia pode transformar a forma como se pensa, cria e produz moda em Portugal.

Alexandre Azevedo

O arranque do primeiro dia de desfiles da 66.ª edição da ModaLisboa ficou marcado por uma apresentação que aponta diretamente para o futuro da indústria. O projeto be@t, promovido pelo CITEVE, subiu à passarela com a coleção Inspired by Nature, um manifesto visual que mostra como a bioeconomia pode transformar a forma como se pensa, cria e produz moda em Portugal.

Be@t

Mais do que um desfile, a apresentação assumiu-se como um verdadeiro manifesto sobre o potencial dos novos materiais e sobre o caminho que a moda portuguesa pode seguir nos próximos anos. “Mais do que uma apresentação de moda, este desfile é um manifesto visual sobre o potencial dos novos materiais. O meu papel foi dar uma linguagem estética e emocional ao trabalho exímio que tem sido feito nos laboratórios e nas fábricas”, explica Paulo Gomes, responsável pela direção criativa. Segundo o criador, a intenção foi clara: “quisemos mostrar que a bioeconomia não é um conceito abstrato ou árido; ela é orgânica, vibrante e tem uma sofisticação intrínseca que nasce da própria inteligência da natureza. Cada coordenado que cruzou a passerarela do Pátio da Galé prova que a responsabilidade ambiental é a nova face da elegância”.

Da natureza nasce a inspiração, da ciência surgem as soluções e da indústria chega a concretização, assim se define o espírito desta coleção, onde sustentabilidade, inovação e criatividade se cruzam numa proposta que coloca a moda responsável no centro da conversa. As peças apresentadas resultam do trabalho colaborativo entre empresas, centros de investigação e instituições académicas, demonstrando que o desempenho industrial e a responsabilidade ambiental podem caminhar lado a lado.

Com direção criativa de Paulo Gomes, o desfile apresentou uma nova geração de moda portuguesa baseada em materiais de origem biológica, processos circulares e tecnologia avançada. Um exercício claro de como a bioeconomia pode influenciar não só a produção têxtil, mas também a estética e o pensamento criativo do design contemporâneo.

A importância desta colaboração foi também sublinhada por António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, que destacou o impacto do projeto na indústria têxtil nacional: “o que aqui apresentámos é o resultado tangível de uma colaboração sem precedentes entre a ciência, a academia e a indústria têxtil portuguesa. Através do projeto be@t, estamos a demonstrar que Portugal tem a tecnologia e a capacidade técnica para liderar a transição global para uma bioeconomia circular”.

Estes produtos demonstradores são a prova de que conseguimos transformar resíduos e matérias-primas de base biológica em soluções têxteis de alto desempenho, garantindo a rastreabilidade e a soberania industrial num mercado cada vez mais exigente.

António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE

A narrativa do desfile foi construída em quatro capítulos distintos, que ilustram diferentes dimensões da inovação material na indústria têxtil contemporânea.

O desfile foi apresentado em quatro momentos que exploram diferentes dimensões da inovação material: Ciclo da Memória destacou a regeneração de materiais através da transformação de resíduos em novos têxteis de alto desempenho; Pulsar da Terra valorizou fibras naturais tradicionais como linho, cânhamo e urtiga, reinterpretadas com acabamentos sustentáveis; Alquimia do Amanhã apresentou soluções de base biológica desenvolvidas a partir de biopolímeros e resíduos agroindustriais; Alma das Cores revelou pigmentos e texturas criados a partir de resíduos naturais, dando origem a superfícies com variações subtis de cor e textura.

Logo à primeira vista, a paleta cromática destacou-se como um dos elementos mais fortes da coleção: azuis profundos, verdes naturais, castanhos e diferentes tonalidades terra dominaram a passarela, acompanhados por bege, amarelo manteiga e nuances suaves que remetem para paisagens tranquilas. Cada cor parece transportar consigo a ideia de ciclo natural, como se as peças nascessem da própria natureza para, um dia, regressarem a ela.

Apesar da forte ligação à sustentabilidade, a coleção faz questão de desmontar um dos maiores mitos do universo da moda: o de que o design consciente é limitado do ponto de vista criativo. Pelo contrário, as propostas mostram que a moda sustentável pode ser sofisticada, dinâmica e apelativa, explorando tendências de forma subtil e equilibrada, sem perder identidade.

Entre as peças-chave surgem gabardines desconstruídas e blazers estruturados, que reforçam a vertente contemporânea da coleção.

Os vestidos que desenham com precisão a silhueta feminina destacam-se pela riqueza de detalhes, com volumes bem trabalhados, peplum, folhos, drapeados e golas em formato de camisa que acrescentam personalidade a cada criação.

E os vestidos e tops cai-cai acrescentam um toque de elegância e sofisticação, equilibrando o lado experimental com uma estética naturalmente feminina.

Os conjuntos de top e saia seguem o mesmo registo expressivo, com pormenores em balão e volumes que trazem leveza e juventude às propostas.

Espaço ainda para coordenados pensados numa lógica unissexo, reforçando a dimensão inclusiva e responsável do projeto. Uma abordagem que reflete o compromisso do CITEVE em afirmar o be@t – Bioeconomy at Textiles como uma referência de sustentabilidade ambiental e social, mantendo no centro da criação valores que colocam o planeta e as pessoas em primeiro lugar.

A apresentação reuniu ainda várias figuras públicas na plateia do Pátio da Galé, entre elas Ana Salazar, Luís Buchinho, Eduarda Abbondanza, Guta Moura Guedes, José Fidalgo, Paula Mateus, Vera Deus e Teresa Ricou, reforçando o interesse que o projeto tem vindo a gerar dentro e fora da indústria.

Prova clara de que o design circular já não é apenas uma ideia de futuro, mas uma alternativa real, viável e cada vez mais presente na moda contemporânea. Uma coleção que demonstra que responsabilidade, inovação e beleza podem, afinal, desfilar lado a lado.