ModaLisboa Pebbling: Béhen e a arte de reinventar a tradição portuguesa

A marca fundada por Joana Duarte, que assume também a direção criativa, tem vindo a consolidar um percurso que cruza tradição, contemporaneidade e uma forte valorização do saber-fazer artesanal.

Alexandre Azevedo

Na edição 66 da ModaLisboa, a Béhen voltou a afirmar a sua identidade singular no panorama da moda portuguesa. A marca fundada por Joana Duarte, que assume também a direção criativa, tem vindo a consolidar um percurso que cruza tradição, contemporaneidade e uma forte valorização do saber-fazer artesanal. Reconhecida dentro e fora de Portugal, a Béhen conta com os Estados Unidos entre os seus mercados de maior expressão e continua a construir uma linguagem própria onde o património cultural português encontra novas leituras.

Para o outono-inverno 2026/27, a marca apresenta a coleção cápsula “Mirror, Mirror on the wall… who´s the cutest of them all?”, um conjunto de peças essenciais de vestuário feminino concebidas a partir de materiais naturais de elevada qualidade e desenvolvidas através de um rigoroso processo de demi-couture. A coleção reafirma a perícia do estúdio e a continuidade do seu trabalho artesanal, revelando uma abordagem meticulosa aos detalhes e às técnicas manuais.

Entre as peças-chave surgem calças e camisas em 100% virgem, rematadas com “rabos de gato” feitos à mão em merino suave, uma técnica tradicional proveniente de Nisa, no Alentejo. Este elemento artesanal reaparece também nas lérias em algodão, reforçando a ligação da coleção às práticas têxteis da região e à valorização de processos manuais transmitidos entre gerações.

As saias e vestidos de sete camadas evocam diretamente as icónicas saias da Nazaré, historicamente usadas por mulheres cujos maridos partiam para o mar. Na interpretação da Béhen, cada camada simboliza proteção, sorte e as ondas da vida, transformando esta referência tradicional numa narrativa visual de resiliência e memória coletiva.

O bordado manual, uma assinatura incontornável da marca, volta a assumir protagonismo. Desta vez, surge através da combinação de missangas de vidro com contas mais finas e delicadas, por isso, um dos destaques da coleção é o vestido Catita, uma silhueta que a Béhen tem vindo a desenvolver ao longo de várias estações. Nesta nova versão, a peça é reinterpretada à luz da tradicional “algibeira” do traje do Minho e encontra-se totalmente coberta por missangas de vidro, meticulosamente bordadas por Joana Duarte ao longo de vários meses de trabalho.

Alexandre Azevedo

Outra estreia nesta coleção é a introdução do burel, material emblemático da Serra da Estrela: na proposta da Béhen, o tecido é transformado numa hoodie contemporânea, enriquecida com a técnica de bordado em feltro de Nisa, num diálogo entre funcionalidade moderna e tradição artesanal.

Alexandre Azevedo

A coleção integra ainda uma técnica que, embora não portuguesa, reforça a dimensão cultural e colaborativa do projeto: o bordado com espelhos do Gujarat, uma arte tradicional originária da região de Kutch, no estado de Gujarat, na Índia. Estes bordados são realizados por mulheres que vivem em Portugal através do Homelore Project, um coletivo de artesãs e mulheres imigrantes que trabalham a partir de Lisboa e de várias regiões do país, utilizando técnicas provenientes dos seus territórios de origem. Na tradição do Gujarat, os espelhos têm um significado simbólico profundo, sendo considerados elementos de proteção contra o mau-olhado, um detalhe que acrescenta uma camada espiritual e narrativa às peças.

Alexandre Azevedo

Inteiramente produzida com materiais naturais, dos tecidos às contas, a coleção revela o melhor trabalho do estúdio e da sua equipa. Mais do que um exercício estético, “Mirror, Mirror on the wall… who´s the cutest of them all?” afirma-se como uma celebração das mulheres, da memória coletiva e do poder transformador do artesanato na moda contemporânea.