Dia Mundial da Moda: os desafios da Sustentabilidade e Inteligência Artificial

O Dia Mundial da Moda é celebrado a 21 de Agosto. Pouco se sabe sobre o que levou à escolha desta data, porém, o mais relevante é aproveitar o pretexto para sensibilizar acerca do impacto que a Indústria da Moda tem no mundo.

O Dia Mundial da Moda é celebrado a 21 de Agosto. Pouco se sabe sobre o que levou à escolha desta data, porém, o mais relevante é aproveitar o pretexto para sensibilizar acerca do impacto que a Indústria da Moda tem no mundo.

A Indústria Têxtil e de Vestuário é a segunda mais poluente do planeta. De acordo com dados da ONU, nos últimos 20 anos, a produção de vestuário duplicou, com o consumidor a comprar mais 60% de peças em comparação com a década anterior; cada peça é utilizada durante muito menos tempo e descartada com mais facilidade, devido à fast fashion. A Fundação Ellen MacArthur, acrescenta que a produção têxtil lança 10% do total de emissões de gases do efeito de estufa, é também a segunda indústria que mais consome água, num valor que atinge os 93 biliões de metros cúbicos por ano e é responsável por 9% dos microplásticos dos oceanos. Por último, mas não menos importante, a nível social há diversas questões por resolver, nomeadamente, os baixos salários e a falta de condições dignas de trabalho, principalmente em países da Ásia.

Em Portugal, tal como noutros países da Europa, marcas e empresas do setor esforçam-se todos os dias para provar que é possível uma Indústria da Moda mais responsável e inovadora, assente em 4 pilares de sustentabilidade: ambiental, social, económico e cultural.

O caminho ainda é longo, mas Portugal tem-no trilhado da melhor forma possível, com fábricas e mão-de-obra cada vez mais qualificadas para a produção em pequena escala e com técnicas ecológicas, através de sistemas que controlam água, energia, produtos tóxicos, desperdício têxtil, reciclagem, entre outros. Apesar da importância dos mercados internacionais, esta capacitação só é possível porque existem marcas portuguesas conscientes, que produzem localmente, seja com materiais inovadores ou através de desperdício têxtil e que se empenham pela moda circular, pois entendem a relevância de entregar ao consumidor um produto de qualidade e produzido com responsabilidade.

O papel preponderante das marcas e consumidores

As marcas têm um papel importante através das suas práticas de produção e a respetiva comunicação. O consumidor é outra parte fundamental neste processo, contudo, apesar da preocupação com estas temáticas, nem sempre o seu comportamento de compra segue esse padrão, principalmente devido ao preço. O Greenwashing pode ser outro problema, por isso, uma comunicação clara e honesta deve ser um compromisso para todas as marcas.

Tudo o que compramos tem um impacto! Como consumidores, devemos questionar as marcas sobre as suas práticas e analisar as etiquetas com a origem e composição das peças de roupa, mas nem sempre é fácil resistir a uma combinação: preço baixo + “que peça tão gira” (design).

Por isso, são também muitas as questões que devemos fazer a nós próprios:

  • Será que preciso mesmo de comprar?
  • Onde é produzida esta peça?
  • Que materiais compõem esta peça?
  • Será que consigo comprar o que necessito em segunda mão?

O caminho não pode ser refletir sobre estes problemas durante os próximos 5 minutos e, a seguir, abrir a aplicação de determinada marca para fechar um carrinho de compras pendente. O consumidor não vai deixar de fazer compras, nem as marcas de produzir. A forma de consumir e os modelos de negócio das marcas é que devem ser ajustados, em prol do planeta e da sociedade.

É aqui que surge a necessidade de abordar a importância de uma comunidade como a FashionHub Portugal. A ideia para criar este projeto surgiu quando eu estava a trabalhar numa agência de produção de moda e a terminar o mestrado. A minha dissertação fez-me desenvolver um estudo sobre o consumidor de moda responsável em Portugal e, além da diferença entre intenção e comportamento de compra, outra das principais conclusões foi que a informação disponibilizada através de dados concretos é, sem dúvida, a melhor estratégia de comunicação, ou seja, as marcas devem expor números exatos sobre a forma como produzem e como ajudam o ambiente. Devido ao uso indevido de algumas plataformas e ao excesso de informação, 86% dos consumidores inquiridos assumiram ser difícil segmentar o que é credível e, por vezes, confiar em tudo o que as marcas comunicam.

Deste modo, a FashionHub Portugal nasceu com o propósito de democratizar informação sobre moda, desde tendências, produção e sustentabilidade, mas também apresentar diversas marcas portuguesas e os seus respetivos produtos e iniciativas, com a missão de unir marcas e consumidores. Por outro lado, é importante olhar para o potencial dessas marcas e empresas, para ajudá-las a implementar estratégias de marketing, comunicação e produção, que é precisamente o que está a ser desenvolvido na FashionHub PRO.

A Moda como mecanismo político e social

A Moda inspira-nos a comunicar, através do que vestimos, um determinado estado de espírito, mas vai muito além disso.

As tendências da moda estão em constante movimento, assim como a vida… Por isso, é necessária uma dose de irreverência e confiança para encarar os problemas, mas também a sociedade e os seus preconceitos.

A moda é arte, cultura, política, economia… mais do que um estado de espírito, é poder ser o que quisermos! Na FashionHub Portugal caracterizamos a moda sob este ponto de vista. Todas as pessoas têm uma história, as peças de roupa também e são como um termómetro da sociedade, distinguem diversos acontecimentos, culturas e alterações de paradigma. É por isso que a Moda é cíclica e, por vezes, intemporal, assim como a história da sociedade que, sob determinadas perspetivas, também passa por transformações de forma cíclica, seja no panorama económico, social, político, bélico, etc.

Ao longo dos anos, a moda tem estado diretamente associada a vários momentos históricos,  através do surgimento de peças de vestuário, como a gabardine, o blazer e a minissaia. Estes são apenas alguns exemplos, mas refletem a importância da Moda como mecanismo politico e social.

A gabardine apareceu durante a Primeira Guerra Mundial, quando a União Soviética e os Estados Unidos começaram a fornecer ao seu exército peças de roupa semelhantes, mas mais curtas. O objetivo foi tornar a peça mais funcional e utilitária para não atrapalhar os movimentos dos soldados. No período pós-guerra, esta peça de roupa ganhou grande popularidade entre a população civil. A gabardine tornou-se um símbolo de estilo empresarial e que transmitia uma mensagem de “respeito” por quem a vestia.

A segunda metade do século XX foi uma das mais interessantes relativamente ao crescimento da moda e ao que ainda hoje se usa. A luta pelo empoderamento feminino trouxe, por exemplo, a minissaia, pelo pensamento crítico da estilista Mary Quant, mas também foi a época em que a introdução da mulher no mercado de trabalho originou uma mudança numa peça de roupa em especial: o Blazer.

O blazer foi associado a um universo mais conservador, formal e que acabou por ser um elemento para caracterizar os homens na sociedade e o estatuto de “chefes de família”. Em 1930, Coco Chanel criou o primeiro modelo de blazer para o público feminino. Com a inserção do universo feminino no mercado de trabalho, esta peça de roupa tornou-se parte do “dress code” para ocasiões mais formais e, desde então, a sua utilização popularizou-se.

Com o passar do tempo, o movimento sufragista, que visava a luta das mulheres para alcançar na sociedade o seu espaço social e profissional aumentou e, entre os anos 60 e 70, Yves Saint Laurent trouxe uma nova peça para a sua coleção, o famoso “le smoking” – que se tornou numa das peças emblemáticas da Maison de luxo Saint Laurent.

Le Smoking – Yves Saint Laurent

A Inteligência Artificial está na moda?

A inovação tecnológica dos últimos anos tem sido aproveitada por marcas e empresas de vários setores, incluindo o da Moda, para otimizar processos de produção, vendas, marketing e distribuição.

No entanto, entre as novas técnicas e ferramentas disponíveis, a Inteligência Artificial, que apesar de não ser uma novidade para quem estuda tecnologia, tem adaptado sistemas e adquirido destaque pela confusão e receio sentido pela maioria das pessoas.

Na Indústria da Moda, a Inteligência Artificial pode ter diversos benefícios, nomeadamente com a sua aplicação em softwares de design 3D, o que permite que uma peça seja desenhada em Portugal e apresentada online a um cliente que se encontra na Dinamarca, por exemplo. Esta ação, diminui os custos de produção, deslocação e reduz mais de 50% das emissões de CO₂; 40% do consumo de água; 50% do consumo de energia; e diminui o desperdício têxtil, pois os ajustes das peças podem ser efetuados de forma digital. Podes saber mais sobre a IA e Design 3D na Indústria Têxtil e de Vestuário, aqui.

Exemplo design 3D da marca portuguesa Impetus | Fonte: DMiX

É importante não confundir design com produção, ou seja, continua a ser fundamental valorizar e apostar no trabalho manual e minucioso de costureiras e em fábricas devidamente equipadas para produzir a partir de um design em 3D elaborado com o auxílio da IA.

Além de um apoio no design, a IA pode ser fulcral para a diminuição do desperdício têxtil, através da deteção de defeitos de produção, como no caso do trabalho desenvolvido pela empresa portuguesa Smartex.

Porém, na minha perspetiva, existem alguns aspetos negativos sobre a utilização da IA, que podem tornar-se autênticos desafios para a sociedade.

Recentemente, a Vogue na sua versão em papel e algumas marcas têm desenvolvido editoriais fotográficos e outros conteúdos produzidos através de IA. Nas redes sociais há diversos influenciadores digitais criados por IA que revelam o “corpo perfeito”, o “cabelo e pele perfeitos”, “um estilo de vida ideal”… Tudo isto levanta-me uma série de questões.

Em primeiro lugar, acho que pode ser controverso, mas estamos a dar mil passos atrás sobre temas tão importantes como inclusão e moda sem género. O debate é constante acerca da influência das redes sociais na vida dos adolescentes, principalmente do sexo feminino, devido à sobrevalorização de um ideal de beleza, e em vez de serem concebidas medidas para verdadeiramente ajudar a colmatar este problema, utiliza-se uma ferramenta para implementar mais uma quantidade abismal de esteriótipos que podem condicionar a forma como as pessoas olham para si próprias.

Mas, existem campanhas publicitárias produzidas por Inteligência Artificial que se tornam verdadeiras obras de arte e de comunicação, como as produzidas pela Jacquemus ou Vestiaire Collective.

Outro fenómeno que me parece relevante abordar é a proliferação de notícias falsas, uma das principais preocupações dos últimos anos, no entanto, de certeza que já dás por ti a ver conteúdo de uma marca e a perguntar-te se é IA ou realidade. Na minha opinião, isto só é grave porque pode levar à disseminação de informações falsas sobre marcas e produtos, o que pode originar alguma desconfiança e ceticismo por parte dos consumidores.

Tirar uma fotografia, fazer um vídeo ou escrever sobre moda são também formas de arte: a luz e ângulo certeiros, a descrição pormenorizada de um desfile ou de uma peça de roupa. As histórias hilariantes dos bastidores, que originam documentários sobre os mistérios, desejos e loucuras da Moda e as figuras icónicas, que vão desaparecer se as transformarem apenas em avatares, sem sentimentos e histórias para contar.

A magia dos bastidores e do universo da Moda pode perder o seu impacto e relevância, ao correr o risco de se tornar em algo banal e desinteressante.

A IA deve ser utilizada com responsabilidade e a sua aplicabilidade deve ser realizada em consciência, para não se perder espírito crítico, criatividade e postos de trabalho que continuam a ser importantes.

A Moda tem um lado humano que se funde com a Arte, espero que apesar de toda a inovação (que é necessária), não se percam valores, nem capacidade intelectual.

A Moda é arte, cultura, política, economia… Mais do que um estado de espírito, é poder ser o que quisermos!

Rita Brito da Silva

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