Entre os dias 1 e 5 de outubro de 2025, Lisboa foi a base da moda portuguesa. A edição 65 da Lisboa Fashion Week passou por diversas artérias culturais da cidade, onde foram apresentados trabalhos e coleções de designers nacionais consagrados e de artistas emergentes.
ModaLisboa Base foi o mote desta edição, que teve como foco tudo aquilo que sustenta a Moda e não apenas o que se exibe: as infraestruturas humanas, tecnológicas, territoriais e emocionais. O evento permitiu a partilha de ideias e valores, entre indústria, criadores e comunidade, através de uma programação espalhada por diversos pontos da cidade de Lisboa, como o MUDE – Museu do Design, Avenida da Liberdade, Palacete Gomes Freire e o Pátio da Galé, epicentro dos principais desfiles.
A Lisboa Fashion Week tem-se transformado num evento de agregação, com a integração de cada vez mais público, através de momentos de entrada livre e maior democratização de experiências, que ultrapassa apenas a participação do público restrito aos desfiles. Nas atividades paralelas constam as “Fast Talks”, que promovem a partilha de ideias sobre moda, sustentabilidade e inovação, com painéis compostos por profissionais destas áreas, mas também, workshops; exposições; pop-ups; e muito mais, numa verdadeira celebração da moda nacional e demonstrando que a ModaLisboa define-se por experimentação e identidade cultural.
Em seguida, fazemos uma breve viagem pela ModaLisboa Base para te apresentar novos projetos e designers emergentes, mas também para mostrar o que a moda de autor tem de mais sofisticado e as propostas primavera-verão 2026 dos criadores nacionais.
Alves/Gonçalves explora o street-chic
Na coleção primavera-verão 2026, a marca Alves/Gonçalves explora uma perspetiva street-chic que se constrói a partir de volumes geométricos e jogos fluidos e femininos. As silhuetas adquirem movimento com diferentes texturas e os acabamentos são o elemento-chave: plissados, flocados e craquelês, que se cruzam com a técnica patchwork
Uma das primeiras peças confecionadas pelo método patchwor... ver mais..., renda e damasco.


O destaque da FashionHub Portugal vai para os vestidos fluidos com formas exageradas, mas também para as saias drapeadas, que evocam leveza e sofisticação.


A visão estética da coleção é marcada pelo contraste, prova disso mesmo é a escolha da paleta cromática, que aposta numa mistura entre cores fortes e suaves: negro, bourdeaux, azul, branco e rosa.



Carlos Gil une a espontaneidade da arte de rua com a sofisticação do design contemporâneo
O designer Carlos Gil apresenta Urban Flow, uma coleção inspirada no movimento e pulsação do ritmo da cidade. Trata-se de um diálogo criativo entre a espontaneidade da arte de rua, como o grafiti e a sofisticação do design contemporâneo.
Esta dualidade surge nas linhas fluidas e curvas ousadas, em contraste com padrões dinâmicos e cortes intemporais que realçam acabamentos minimalistas.



A utilização de cores vibrantes é uma característica comum das criações de Carlos Gil, por isso, o contraste é também percetível entre o azul, verde e laranja com o preto, que realça a intemporalidade e elegância das peças.



Outro dos destaques são os conjuntos formados por blazer e calças e as transparências de blusas e vestidos, que ajudam a realçar o lado mais clássico e exuberante da coleção.



Dino Alves lança uma coleção Mais Além, para transformar o banal em extraordinário
A coleção primavera-verão 2026 de Dino Alves, Mais Além, é um exercício de superação criativa. O criador nacional quis transformar o banal em extraordinário, explorar os limites e o espírito inquieto e visionário, para vestir sem convenções e dar palco à autenticidade.

A coleção explora a liberdade criativa através de diversas cores, com uma paleta que percorre o preto, o pérola, o marfim, o verde céladon, o castanho, o verde céu, o amarelo limão, o azul noite, o azul petróleo, o bourdeaux, o rosa chiclete e as riscas de camisaria.



Além disso, o universo criativo de Dino Alves manuseou e transformou diferentes materiais, como o algodão
O algodão é uma das matérias-primas mais comercializadas ... ver mais..., viscose
A viscose é feita através de um processo de rayon, por iss... ver mais..., organza, popeline, rede, crepe, entre outras texturas que permitiram desconstruir conceitos e criar detalhes contemporâneos e sofisticados, porque transformar peças, “não significa com isto que as peças tenham que ser mais elaboradas, mais estranhas ou espampanantes, já que ir mais além pode ser no sentido da depuração e simplificação”, explica a marca em comunicado.



Nos detalhes sobressaem os drapeados, os godés multiplicados, o contraste entre oversized, o justo e o efeito crinolina. Por isso, na FashionHub Portugal, destacamos as saias e vestidos, que conferem a altivez da coleção.



Destacamos também o movimento das peças, conseguido através da fluidez dos materiais, trabalhados com cortes delicados e precisos, tanto nos looks femininos como masculinos, neste último realçado através de camisas e casacos irreverentes.


A elegância feminina fica também realçada noutros detalhes, como as transparências, franjas e a cor preta, que predomina na coleção.


DuarteHajime: a moda como mecanismo que transforma a mitologia
A coleção primavera-verão 2026, reinterpreta o mito da Medusa, não a vendo como um monstro que transforma quem a olha nos olhos em pedra, mas como um símbolo de poder feminino e de transformação.


Em tons de cinzento pedra, verdes profundos e pretos que ecoam o seu mistério; lilases suaves que revelam a sua vulnerabilidade; e dourado que relembra a armadura de Athena e as sandálias douradas com asas do deus Hermes, usadas por Perseus.



Com cortes inspirados em serpentes e detalhes de asas que relembram Pegasus – o filho de Medusa; com silhuetas fluidas e texturas fortes – cada peça representa transformação e força.
Gonçalo Peixoto celebra o verão com muita cor e sofisticação
Na coleção primavera-verão 2026, Gonçalo Peixoto volta a fazer da mulher figura central, com sensualidade, delicadeza e energia vibrante.
As silhuetas livres assumem uma expressão da feminilidade e as transparências e texturas etéreas, transmitem ousadia. A narrativa visual evoca elementos naturais e táteis do verão, os tons ácidos evocam frutas frescas.



Sem esquecer os tons pastel e a doçura da renda, que contrasta com as cores mais impactantes da coleção.



O amarelo, magenta e turquesa são os tons que combinam a paleta cromática com estampados intemporais.


As peças frescas e contemporâneas fundem-se com um estilo clássico para acompanhar os dias sofisticados de verão e os dias agitados no escritório, com casacos oversized, camisas com manga balão e conjuntos de calças e blazer.


Kolovrat: o equilíbrio entre Moda e Natureza
As coleções de Kolovrat exploram diversos estados da Natureza, fazendo um jogo com o estado da Moda. Na coleção primavera-verão 2026, a criadora transporta para as suas peças o peso e as formas óbvias de uma rocha para um conceito de presença, através de grandes silhuetas.


O preto surge como cor central da coleção, acompanhado do verde e dos tons terra que expõem ainda mais a ligação do conceito à natureza.



A coleção Stone Age é composta por volumes que conferem fuidez e movimento a saias e vestidos. As transparências e drapeados dão um toque sofisticado às peças que, na sua maioria, são produzidas com algodões e organza.


Luís Carvalho usa a Moda como mecanismo social: a União com diferentes cores e texturas
A coleção “Union” surge como um manifesto tátil, “uma celebração evocativa do amor, da ligação e dos fios invisíveis que nos unem”, refere a marca em comunicado.
Uma linha unificadora, ora estruturada, ora rendendo-se ao fluxo percorre a coleção, surgindo como barras horizontais que ecoam pelas silhuetas.


Uma geometria orgânica com formas que respiram, expandem e respondem ao movimento, através de cortes assimétricos, a que se juntam outros detalhes: peplum, que confere volume na anca; blazers estruturados; vestidos boneca, que refletem sofisticação; uma reinterpretação da camisa branca; e silhuetas exageradas.

A união estabelece-se nos contrastes, da mesma forma, destacam-se as cores utilizadas, como o branco, azul-petróleo, roxo, turquesa e mostarda, que permitem fazer conjuntos e combinações sofisticadas.

Nuno Baltazar prova que não faz roupa para uma única estação: intemporal, clássico e irreverente
Nuno Baltazar apresentou a coleção primavera-verão 2026 no jardim do Mude – Museu do Design, num terraço com vista privilegiada para Lisboa.
A coleção coloca em diálogo personagens reais e imaginárias, que já fizeram parte do seu universo criativo noutras coleções. Tudo isto, com o objetivo de demonstrar que as peças não podem ser produzidas para uma única estação, valorizando o intemporal e a irreverência sofisticada.


A elegância da coleção está nos brilhos presentes em vestidos, saias, blusas e blazers.



A coleção está embuida de dualidade cromática, através de tons como o preto, castanho e branco, em contraste com o cor-de-rosa, amarelo, verde e azul-royal.



Na FashionHub Portugal, destacamos as silhuetas fluidas, as sobreposições e os blazers que conferem uma composição sublime, clássica e delicada.


Valentim Quaresma mostra o lado contemporâneo do punk dos anos 80
A coleção primavera-verão 2026 é inspirada no estilo punk dos anos 80, adaptando-o a um registo contemporâneo.


O preto assume o papel principal da coleção, mas destacam-se as peças fluidas e volumosas, assim como, as transparências.



A tradição de Behén e a criatividade de Constança Entrudo
Joana Duarte (Behén) e Constança Entrudo apresentaram as suas criações em eventos exclusivos, em locais especiais: no Mude e na loja Castle HIHIHI, respetivamente.
Para Behén, romper o calendário tradicional é uma estratégia da marca. “Bem me quer, mal me quer”, é o nome da coleção primavera-verão 2026, que foi toda produzida no atelier da marca em Lisboa. As peças foram confecionadas a partir de “materiais antigos e tesouros descobertos”, tal como refere a marca.


A maestria do trabalho artesanal une-se a formas contemporâneas, traduzidas em diferentes modelos de vestido: com efeito balão, drapeados, com godé e delicadas rendas.



A magia acontece tanto para masculino e feminino, ressaltando o conceito de moda sem género e ao transformar tecidos antigos em joias para vestir.


Constança Entrudo desconstruiu por completo o conceito tradicional de desfile numa Semana de Moda e aproveitou a inauguração da loja independente e estúdio criativo Castle HIHIHI – projeto que une a sua comunidade no histórico bairro lisboeta.


Assim sendo, Constança Entrudo, a convite do CHHH, reinterpreta fantasias infantis numa coleção que reflete a realidade fragmentada da produção globalizada, onde materiais e mão-de-obra de geografias distintas convergem em peças que são descartadas tão rapidamente quanto são produzidas.


Luís Onofre e Portuguese Soul by APICCAPS
Luís Onofre apresenta “Colourised”, a coleção primavera/verão 2026 que é um manifesto de ousadia estética onde as cores se reinventam em combinações improváveis e irresistíveis.

Seguindo o mote da coleção, a paleta cromática surpreende: castanho encontra-se com laranja vibrante, funde-se com azulão profundo e verde folha intenso; fúcsia e rosa velho contrastam com a sofisticação do ouro antigo.



As sandálias vertiginosas elevam a feminilidade e as cunhas são reinterpretadas em linhas modernas; os entrançados surgem como tendência da estação, conferindo textura e movimento.



A apresentação da Portuguese Soul é uma ode ao tradicional, ao trabalho manual e às tradições portuguesas. É transmitir que criatividade tem de ser o reflexo de sustentabilidade. Com este espírito, a Portuguese Soul apresentou-se na ModaLisboa, com diferentes marcas nacionais: Ambitious, Carlos Santos, Helena Mar, Leather Goods by Belcinto, Miguel Vieira, Penha, Sanjo e Valuni.


Esta foi uma iniciativa da APICCAPS, em parceria com a ModaLisboa, e que conta com o apoio do PRR, no âmbito do projeto BioShoes4all
O BioShoes4All é um projeto de inovação e capacitação d... ver mais....
As estreias de 2B, Ana Margarida Feijão e Gandaia na ModaLisboa
A estreia da 2B na ModaLisboa marcou também o início da marca, que tem Bárbara Bandeira como diretora criativa.



A coleção “Génese”, é uma tela em branco onde tudo pode nascer e vinca as principais características da marca: a liberdade, a moda sem género, sem tendências e amarras, e 100% produzida em Portugal. Ainda assim, destacamos a dualidade entre as formas oversized, os ombros largos e a desconstrução em silhuetas fluidas e definidas.



Ana Margarida Feijão apresentou “Liberdade é nome de ser Mulher”, a continuação do trabalho iniciado pela designer na sua coleção de final de curso, apresentada em 2024 na Semana da Moda de Nova Iorque.
A coleção apresenta uma paleta monocromática dominada pelo preto – uma escolha deliberada, carregada de peso simbólico e emocional. As sedas, drapeadas à mão e inspiradas nas saias volumosas do traje tradicional português, contrastam com a firmeza do couro
O couro é um material que deriva de animais de diferentes e... ver mais..., refletindo a constante tensão entre proteção e exposição.



A Gandaia é uma marca fundada por Vera Caldeira e Pedro Ferraz e que celebra a liberdade e autenticidade, com um estilo contemporâneo e influências clássicas e sofisticadas. O percurso empreendedor dos dois amigos de infância teve início em 2018, com o lançamento da Mustique, que sofreu uma transformação natural. Volte Sempre é a nova coleção de primavera-verão 2026 da Gandaia. Uma ode à expressão típica portuguesa, mas que traz novos cortes e silhuetas, numa coleção que reforça a evolução da marca: mais madura e elegante, sem perder a sua irreverência.


Sara Maia e Roselyn Silva
Sara Maia apresenta: “Nada aconteceu. E, ainda assim, tudo mudou”, é uma obra que nasce de um silêncio prolongado. Um trabalho com contrastes entre rigidez e fluidez, opacidade e transparência, estrutura e leveza, para expressar estados emocionais e tensões internas que muitas vezes não têm nome.

Roselyn Silva nasceu em São Tomé e Príncipe, mas cresceu em Portugal. Cada uma das suas coleções reflete uma ligação à identidade e à elegância, enraizada na cultura afro-europeia. A utilização de materiais naturais
Os materiais naturais apresentam-se em duas categorias: os q... ver mais... e reciclados, revelam o lado ético da criadora.



Esta coleção é o apogeu da resiliência do processo de construção da marca, é uma consolidação de estilo e criatividade, através de um corte contemporâneo e sofisticado.


Na FashionHub Portugal destacamos as blusas com laço, os conjuntos de calças e blazer, as saias-lápis, mas também os modelos que transcendem para volumes e peplum, conferindo estrutura aos looks. Uma mistura de autenticidade e delicadeza.


Workstation Design: a plataforma que consolida designers emergentes
A Workstation Design supported by Jean Louis David estreou-se na MODALISBOA BASE como a reformulação de uma plataforma histórica da Associação ModaLisboa e que recebeu, em três desfiles, ARNDES, Bárbara Atanásio, Çal Pfungst, Francisca Nabinho, Gabriel Silva Barros e Mestre Studio.
ARNDES
ARNDES apresenta “Veraneio”, uma coleção que sugere um verão entre contrastes, o rústico e o sofisticado, o tradicional e o tecnológico, a memória e a experimentação.
Na coleção predominam os tons preto, branco e bege, em silhuetas simples e fluidas. Os principais detalhes são os cortes das peças, drapeados e com a sensação de movimento, mas realçados por franjas e transparências.



Bárbara Atanásio
“Anarquia da inocência”, revela uma coleção trabalhada a partir de um jogo de construção de diversos materiais e da fusão de diversos estilos, convergindo a criatividade para praticidade e utilidade.



Çal Pfungst
Numa coleção notável, Çal Pfungst transcende a criação a que nos habituou, através de looks arrojados, mas sofisticados.



Francisca Nabinho
“A alegria é a coisa mais séria da vida”, é o nome da coleção primavera-verão de Francisca Nabinho. Inspirada na obra de Almada Negreiros e refletida na frase proferida pelo artista em 1932, no Teatro D. Maria II, é composta por formas geométricas, o uso intensivo de cor e padrões que nos remetem para um mundo de fantasia.


O amarelo, azul, rosa, laranja, branco, surgem em vestidos fluidos com decotes acentuados, em blusas com manga balão; onde sobressaem também as calças corsário, os folhos, as franjas e as transparências, num jogo de magia e criatividade.



Gabriel Silva Barros
Gabriel Silva Barros apresenta PERLIMPIMPIM, um mundo de constante fluidez entre a realidade e fantasia.
As silhuetas sedutoras foram alcançadas através de técnicas contrastantes, onde malhas leves se combinam com malhas pesadas, criando tensão e movimento intencionais. A dualidade na paleta de cores — rosa e azul, preto e branco — também a expressa.


Mestre Studio
Diogo Mestre, o diretor criativo de Mestre Studio apresenta a coleção “Trugia”. Na realidade esta expressão é um regionalismo frequentemente usado no Alentejo e Algarve, e significa “conjunto de objetos sem préstimo ou valor; tralha”.



A coleção é inspirada por uma vertente imaginária que procura elementos do passado: “revisita os objetos esquecidos, aparentemente inúteis, mas que resistem como testemunhos do passado. A boneca com que brincámos todos os dias, a mala com os cantos gastos, a pilha de roupa velha e a caixa onde repousam, cobertos de pó, objetos, fragmentos da nossa história que já não têm utilidade, mas que guardamos”, refere Mestre Studio em comunicado.
Fotografias: Ugo Camera | João Pedro Padinha | Luís Miguel Fonseca | Eduardo Estrela









