A NMADE é uma marca portuguesa fundada em julho de 2020, que nasceu sob a resiliência e o talento de Raquel Bento e Cristina Fernandes, duas amigas que viram as suas vidas mudar radicalmente no início da pandemia Covid-19 em Portugal, numa altura em que o mundo praticamente parou e diversos negócios ficaram em suspenso dando origem a novas aventuras. Foi precisamente isso que aconteceu a estas duas amigas que se conheciam há mais de 20 anos: Cristina Fernandes tem uma empresa de representação de marcas de tecidos de decoração e acumulava amostras e sobras sem destino; Raquel Bento tinha deixado um emprego de 17 anos numa empresa da área financeira e sentiu que era o momento ideal para investir no seu projeto de costura criativa.
A partir do desperdício têxtil, com sobras de tecidos que muitas vezes eram deitadas ao lixo, a NMADE surge como um exemplo brilhante de como a moda pode ser sinónimo de propósito e identidade. Com um olhar atento ao design e à sustentabilidade, a NMADE propõe peças únicas, que não só celebram a arte de transformar, mas também contam histórias de resiliência e inovação.

Numa entrevista exclusiva à FashionHub Portugal, a diretora criativa da NMADE, Raquel Bento, que assumiu a marca sozinha após a saída de Cristina Fernandes do projeto, partilhou connosco o percurso que a levou à criação da marca, a sua visão sobre sustentabilidade na moda e o impacto positivo que espera ter no mercado. Continua a ler este artigo para descobrir mais sobre o processo criativo, as inspirações por trás das coleções e como a NMADE redefine a forma como vemos o desperdício na Indústria da Moda
A Indústria da Moda concentra diversas atividades, prática... ver mais....
Entrevista a Raquel Bento
Como é que define o conceito da NMADE?
Raquel Bento (R.B.): A NMADE transforma desperdício têxtil em malas únicas, feitas à mão em Portugal e cada peça nasce de materiais que ganham uma nova vida através de um processo artesanal que valoriza o tempo, o detalhe e a autenticidade. A criação dos produtos é em pequena escala, sem pressa e sem produção em série, por isso, cada mala é diferente porque cada mulher também é. Trabalho com propósito: reduzir desperdício, prolongar a vida dos materiais e oferecer acessórios funcionais, duradouros e cheios de carácter.
De onde são provenientes os tecidos e materiais que utiliza na confeção das peças?
R.B.: Os tecidos vêm de amostras e restos de trabalhos de ateliers, estofadores e representantes de marcas de tecidos de decoração. As empresas representantes de marcas de tecidos trabalham com amostras, ou seja, retalhos de tecido maiores e outros mais pequenos para as variações de cor, deste modo, quando as coleções são descontinuadas essas amostras deixam de ter utilidade.
Também trabalho com estofadores que possuem bastantes retalhos de tecido e com empresas que vendem tecidos deadstock
Os materiais deadstock referem-se às “sobras” da ind... ver mais....
Desde o início, escolhi trabalhar com materiais resistentes, capazes de durar e de serem reparados ao longo do tempo. A utilização da pele animal foi uma opção consciente: é biodegradável, duradoura e intemporal, nesta componente compro sobras provenientes de fábricas de calçado e marroquinaria.
Como é feita a seleção dos desperdícios: é mais estética, funcional ou ética?
R.B.: Quando recebo desperdício gratuitamente, não faço qualquer triagem, fico com tudo, porque cada material tem potencial para ganhar nova vida (exemplo dos bag charms que são feitos com outros materiais que não são tecidos). Quando compro, procuro sempre unir o lado visual, (que é essencial para que a peça seja apelativa) à funcionalidade, já que para criar malas preciso de tecidos estruturados e capazes de garantir um bom resultado final.
Por sua vez, a ética é uma constante: trabalho apenas com desperdício. Embora privilegie fibras naturais como algodão
O algodão é uma das matérias-primas mais comercializadas ... ver mais..., linho
A fibra do linho é desenvolvida através de uma planta de c... ver mais... ou lã
A lã é uma fibra de pelo, que pode ser obtida de diversos ... ver mais..., o meu foco principal é evitar que materiais úteis acabem em aterros, por isso, aproveito tudo o que chega até mim.
O facto de trabalhar com desperdício, limita ou inspira o seu design?
R.B.: Esta é uma pergunta realmente difícil de responder, porque trabalhar com desperdício é, ao mesmo tempo, um desafio e uma fonte de inspiração. É verdade que pode limitar a escala e o lucro, uma vez que a maioria das peças são modelos únicos… Às vezes a quantidade da amostra ou retalho só chega para uma unidade, por outro lado, eleva o design: obriga-me a pensar melhor, a ser mais criativa e a reinventar soluções. Cada material inesperado pede uma abordagem nova e isso faz com que cada peça seja mais autêntica. Para mim, diria que inspira…
Há alguma peça ou coleção que considere especial na história da marca?
R.B.: Sou autodidata e isso faz com que, por vezes, tenha receios e hesite em avançar para modelos que ainda não domino totalmente. Comecei por produzir totebags e sacos simples, numa fase em que ainda estava a ganhar confiança… Acho que a City Bag marcou um antes e depois na história da NMADE e foi a peça que deu uma identidade mais forte à marca: um salto claro no design, na execução e na ambição.
A partir deste modelo comecei a arriscar mais, a testar novos desafios e a perceber que sou capaz de criar modelos cada vez mais complexos. A City Bag não foi apenas uma peça, foi o momento em que me vi como criadora e não apenas como alguém que cose bem.


Possui dados concretos, que me possa revelar, sobre a quantidade de resíduos que a NMADE já transformou?
R.B.: De há 2 anos para cá, comecei a numerar as peças da NMADE para reforçar a autenticidade de cada peça, neste momento ultrapasso as 500 peças. Julgo que podemos estar a falar de 1500 no total, o que faria cerca de 1 tonelada de tecidos que foram reaproveitados.
De que forma efetua a gestão da NMADE? Tem uma equipa que a ajuda com marketing, logística, produção? Ou acaba por desempenhar todos estes papéis profisisionais?
R.B.: Como em muitos negócios artesanais e de autor, acabo por desempenhar a maioria dos papéis sozinha. Neste momento conto apenas com apoio na área do marketing e redes sociais.
Todas as peças da NMADE são produzidas em Portugal? Possui algum atelier próprio ou a produção é efetuada com ajuda de algum parceiro/fábrica?
R.B.: Todas as peças são feitas em Portugal, 90% são inteiramente feitas por mim no meu atelier, 10% conto com ajuda de costureiras que apenas fazem o trabalho de costura. Tudo o resto é executado por mim: alças, etiquetas, ferragens, acessórios, detalhes, entre outros elementos. A especificidade da matéria-prima não permite produção em fábrica ou em série, porque a maioria dos tecidos são retalhos que apenas permitem a confeção de uma peça.
Depois de definir qual é o modelo, existe um processo para combinar tecido exterior, tecido interior, bolso, alças e ferragens… Esse trabalho é feito individualmente para cada peça. O resultado será o produto final, portanto, tem de ter a minha visão e o meu gosto pessoal… Mas, quando tenho ajuda de costureiras levo todos os tecidos cortados e juntos (exterior, interior e bolsos) e as senhoras apenas costuram os tecidos.
Como garante a qualidade e durabilidade dos produtos feitos a partir de materiais reaproveitados?
R.B.: Apesar de trabalhar com desperdício, utilizo apenas materiais novos, nunca tecidos usados. No setor da decoração, um dos nossos parceiros no fornecimento de matéria-prima, estes tecidos são desenvolvidos para resistir ao tempo, ao uso intensivo e à luz; por isso, têm elevados padrões de durabilidade, perfeitos para malas e acessórios. A durabilidade não vem apenas do material, mas da forma como cada peça é pensada para acompanhar a vida das clientes durante muitos anos. Eu crio modelos minimalistas, estruturados e intencionais, que facilitam a reparação sempre que necessário e até a substituição de algumas partes. Além disso, produzo tudo manualmente, em pequena escala, o que permite acompanhar cada etapa, controlar detalhes e assegurar que cada mala NMADE cumpre aquilo que prometo: ser funcional, resistente e cheia de propósito.

Como é que o público português tem reagido a produtos produzidos a partir de desperdício?
R.B.: A reação do público português tem sido muito positiva e calorosa, tenho o feedback de muitas pessoas que comentam que é “uma excelente ideia” e mostram curiosidade em perceber como os tecidos ganham nova vida. No entanto, sinto que ainda existe pouca informação sobre o verdadeiro impacto do desperdício têxtil: a maioria não imagina quantas toneladas acabam em aterros, nem conhece o destino real das roupas colocadas nos contentores de rua. Essa falta de consciência não diminui o meu entusiasmo, mas revela uma oportunidade: a de informar, inspirar e aproximar as pessoas deste processo. Quero que a NMADE seja também um veículo de informação e comunicação, não só uma marca de malas. O objetivo é mostrar que o design sustentável é possível, acessível e cheio de valor, porque quanto mais as pessoas conhecerem esta realidade, mais valorizam o trabalho e o propósito por detrás de cada peça.
Na sua perspetiva, o mercado português está a tornar-se mais responsável?
R.B.: Depende do segmento, mas na minha perspetiva, sim… percebo sinais de que o mercado português está a tornar-se mais responsável, embora ainda haja caminho a percorrer.
Na minha perspetiva, tem existido um aumento da procura por marcas que valorizam a sustentabilidade, a produção local e a economia circular
O conceito de economia circular tem como objetivo reduzir o ... ver mais...; consumidores cada vez mais conscientes do impacto ambiental e social das suas compras. Também noto que há mais marcas (e novos projetos) a privilegiar matérias-primas recicladas ou reutilizadas, e a comunicar com honestidade esse compromisso.
Mas, ao mesmo tempo, o mercado em geral ainda está muito orientado para a fast fashion
A indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo, a ... ver mais..., produção em larga escala e preços baixos. O que torna difícil para marcas independentes e sustentáveis competirem em volume.
Para mim, esta dualidade representa uma oportunidade: há espaço para crescer de forma consciente, e para mostrar que valor e compromisso ambiental podem andar de mãos dadas.
Existem muitos desafios para o futuro: sustentabilidade e alterações climáticas; questões políticas que podem diretamente influenciar mercados; e uma indústria (a da Moda), que todos os dias luta contra paradigmas e para conseguir soluções eficientes para as marcas e os consumidores. A NMADE está pronta para enfrentar todos estes desafios?
R.B.: A NMADE acredita que a mudança se constrói passo a passo, não precisamos que uma única pessoa seja perfeita em tudo, mas precisamos que milhares de pessoas imperfeitamente conscientes, percebam que o consumo desenfreado tem um impacto real no planeta e que pequenas escolhas acumuladas transformam sistemas inteiros.
Sabemos que os próximos anos trarão desafios, desde as questões ambientais às instabilidades políticas, passando por uma indústria da moda
A Indústria da Moda concentra diversas atividades, prática... ver mais... que ainda procura equilibrar criatividade, ética e eficiência. No entanto, a NMADE está preparada para continuar o seu caminho com a mesma intenção que lhe deu origem: reduzir desperdício, valorizar o artesanal e criar peças com propósito.
O compromisso que estabeleci mantém-se firme: olhar cada mulher como única, criar peças que refletem essa unicidade e preservar a autenticidade que define a marca. Para nós, o futuro não se enfrenta com perfeição, enfrenta-se com consciência, consistência e coragem para fazer diferente, mesmo em pequena escala. É assim que continuarei a contribuir para um mundo melhor, um acessório de cada vez.

Acredito que a sua perspetiva empreendedora seja mais focada no mercado português, no entanto, pensa alargar o projeto a nível internacional? Ou melhor, sendo que vivemos num mundo cada vez mais globalizado, já tem clientes internacionais? Se sim, quais são os principais mercados?
R.B.: Efetivamente estou mais focada no mercado português, mas já enviei algumas peças para clientes em Espanha, Itália e Bélgica. Sendo que a produção assenta maioritariamente no meu trabalho, é difícil produzir em quantidade, e portanto a presença noutros mercados é algo que não pode neste momento ser equacionada, sem que para isso haja uma alteração significativa na produção.
Além dos meios digitais, como o site, existem pontos de venda físicos da NMADE? Se sim, onde?
R.B.: Já tive peças em várias lojas pelo país, nomeadamente no Porto, Coimbra, Aveiro e Lisboa e, neste momento, estou presente no Porto, Lisboa e Leiria. A gestão de stock é desafiante, sobretudo quando trabalho à consignação, porque cada peça é única e impossível de replicar. Além disso, ao lançar coleções cápsula em vários pontos de venda, preciso de produzir mais unidades num curto espaço de tempo… e nem sempre é viável.
Para si, o que é a Moda?
R.B.: Para mim, a moda é uma combinação perfeita entre expressão, função e emoção, onde cada escolha comunica quem somos e no que acreditamos.
Quando crio, o que me move é provar que beleza e consciência podem coexistir e que a peça perfeita é aquela em que o design tem um propósito definido…
No fundo, a moda é linguagem: conta histórias, revela valores, traduz identidades… Por isso, quando alguém usa uma mala NMADE, quero que sinta exatamente isso, que encontrou a mala perfeita para si.

Enquanto empreendedora, qual é o maior desafio que tem enfrentado nesta jornada?
R.B.: O maior desafio tem sido trabalhar num ecossistema que ainda não está preparado para apoiar verdadeiramente pequenos negócios: falta oferta de serviços ajustados à nossa escala, desde marketing, fotografia, design… Tudo isto exige investimentos elevados e difíceis de sustentar numa marca que produz de forma artesanal. No nicho onde a NMADE se move, existe ainda outra dificuldade: encontrar fornecedores que compreendam a nossa visão e que aceitem trabalhar em pequenas quantidades, sem comprometer a qualidade do produto final. A produção sustentável exige flexibilidade e compromisso, e nem todos os parceiros estão preparados para isso.
Como é que vê a NMADE daqui a 5 anos?
R.B.: A NMADE é um projeto profundamente pessoal, por isso, devido ao carácter único das peças e pela forma como todo o processo passa pelas minhas mãos, não ambiciono escalar para grandes mercados, nem transformar a marca numa produção em massa. Acredito que continuará a ser um projeto de autor, íntimo, consciente e fiel ao seu ritmo.
Daqui a cinco anos, quero ver a NMADE ainda mais sólida no panorama das marcas portuguesas e sustentáveis, reconhecida pela autenticidade, pelo impacto positivo e pela forma como cada peça carrega uma história.
O meu objetivo é simples: crescer com propósito, sem perder a alma que fez esta marca nascer.

Raquel Bento está longe de ter tido um percurso académico ligado à Moda, o percurso da diretora criativa da NMADE passou primeiro por um curso de Gestão e, posteriormente, pelo trabalho na área financeira durante 17 anos. Ainda assim, a costura criativa, o gosto por imaginar peças e a vontade de produzir manualmente estiveram sempre presentes como uma paixão silenciosa. A NMADE nasceu precisamente desse encontro feliz entre a técnica e a sensibilidade: de materiais à espera de uma nova vida e de uma criadora movida pela curiosidade, pelo saber-fazer e pela vontade constante de experimentar e aprender.
Atualmente, Raquel Bento convive com outra vertente profissional igualmente assumida, a compra, remodelação e venda de imóveis, uma atividade onde encontra também prazer no processo criativo da transformação. No entanto, se o futuro exigisse uma escolha definitiva, a resposta surge clara e sem hesitações: seria a NMADE. É neste projeto que encontra liberdade criativa, sentido e realização pessoal, ao transformar materiais descartados em malas únicas, um acessório pelo qual assume uma paixão absoluta e que sintetiza, em cada peça, a sua visão consciente, estética e profundamente ligada ao trabalho manual.
A NMADE desenvolve algumas iniciativas, como workshops e encontros entre entusiastas do design criativo e clientes da marca, para sustentar a proximidade com diferentes públicos e potenciar a troca de experiências. Descobre a próxima e acompanha a página de Instagram da marca:










