ModaLisboa Pebbling: Luís Carvalho transforma memória em silhuetas marcantes na coleção Afterimage

Na 66.ª edição da ModaLisboa, Luís Carvalho apresentou Afterimage, a coleção outono-inverno 2026/27, com destaque para silhuetas marcantes, onde cinturas que definem a forma do corpo contrastam com ombros estruturados.

Alexandre Azevedo

Na 66.ª edição da ModaLisboa, Luís Carvalho apresentou Afterimage, a coleção outono-inverno 2026/27 que mergulha no território subtil entre aquilo que foi vivido e aquilo que permanece na memória. Um espaço onde as recordações se desfocam, se transformam e regressam com novas leituras, inspirando uma proposta contemporânea que cruza emoção, estrutura e narrativa visual.

As silhuetas foram pensadas a partir dessa dualidade entre presença e ausência: cinturas marcadas que definem a forma do corpo surgem em contraste com ombros estruturados ou cavas descaídas, criando uma atitude simultaneamente rigorosa e despreocupada.

Um jogo constante entre controlo e liberdade percorre toda a coleção, revelando peças onde a construção exata convive com uma certa leveza instintiva, como se cada look transportasse ecos de memórias reinterpretadas. Entre as propostas, destaque para as gabardines em formato oversized e de formas exageradas, peças-chave que reforçam a importância deste clássico na construção de um look e acrescentam presença arquitetónica às silhuetas.

A atenção ao detalhe reforça esta dimensão narrativa, para isso são protagonistas bolsos, pregas e drapeados, que surgem como elementos estruturais que acrescentam movimento e profundidade às peças, enquanto faixas envolvem a silhueta num gesto que oscila entre proteção e revelação.

Estes pequenos gestos de design transformam a roupa em linguagem e sugerem uma ligação emocional entre corpo, tempo e memória. Além de silhuetas marcantes, as transparências surgem como um dos elementos que conferem feminilidade e sofisticação às peças da coleção.

A materialidade da coleção apoia-se na tradição da alfaiataria, território central no trabalho do designer. Sarjas clássicas encontram-se com jacquards de superfície enrugada que introduzem textura e complexidade visual, evocando a ideia de tecidos com memória própria, marcados por uma beleza vivida e quase herdada.

Os vestidos boneca regressam também nesta temporada, recuperados da coleção primavera-verão 2026 do designer e reinterpretados através de materiais com maior estrutura e de uma paleta alinhada com os tons da nova estação. Uma abordagem que reforça a importância da construção e da matéria como elementos essenciais na criação contemporânea.

A paleta cromática acompanha esta atmosfera de nostalgia depurada, os tons de cinzento e preto estabelecem uma base sóbria e elegante, complementada por nuances de bege e branco que acrescentam luminosidade.

Pelo meio, o vermelho-sangue irrompe com intensidade, trazendo emoção e contraste a uma narrativa cromática contida, mas profundamente expressiva.

A coleção afirma ainda uma colaboração especial com a histórica casa portuguesa Topázio, que surge através da reinterpretação inesperada de objetos do quotidiano transformados em joias. Estas são peças que habitam a fronteira entre função e poesia e que reforçam a dimensão simbólica da coleção, onde memória, design e tradição se encontram.

Entre alfaiataria contemporânea, textura e emoção, Afterimage revela-se como uma reflexão sensível sobre o tempo e as suas marcas. Uma proposta onde o passado não surge como nostalgia, mas como matéria viva para imaginar novas formas de vestir o presente.