No início de 2026, nasceu a PISCO, uma marca portuguesa de malas e acessórios que afirma uma identidade própria no panorama emergente da moda nacional. Recentemente, a marca foi convidada a integrar o desfile da coleção outono-inverno 26/27 do criador Dino Alves, no âmbito da ModaLisboa, reforçando a sua crescente visibilidade no setor. Entre design autoral, produção artesanal e uma abordagem consciente, o projeto reflete uma nova geração de criadores que privilegia a autenticidade e a longevidade das peças. Com formação em Design de Moda pela Universidade da Beira Interior, concluída em 2024, Ana Rita Pisco sustenta o seu trabalho numa combinação entre conhecimento técnico e sensibilidade criativa.

A FashionHub esteve à conversa com a fundadora para conhecer melhor o universo da marca, o seu processo criativo e que projetos tem para o futuro.
Como surgiu a PISCO e o que motivou a criação da marca?
Ana Rita Pisco (A.R.P.): A PISCO nasce de um desejo antigo de criar uma marca própria, que foi sendo adiado ao longo da formação académica e dos primeiros passos no mercado de trabalho. Com o tempo finalmente disponível, a oportunidade de concretizar essa ambição ganhou forma. O foco nos acessórios surgiu de uma análise ao mercado, onde a menor oferta face ao vestuário revelou um espaço por explorar. Mais do que um complemento, os acessórios assumem um papel central na construção de um look. Um acessório tem a capacidade de elevar, complementar e até transformar qualquer look, e muitas vezes é o elemento fundamental.
Comecei a criar alguns protótipos, que fui posteriormente aprimorando até chegar aos três principais modelos da PISCO, dando origem a uma coleção de 25 malas. Terminada essa coleção, dei a marca por consolidada no dia 12 de janeiro de 2026, data que considero ser a sua fundação.
Qual é a essência e identidade da marca?
A.R.P.: A PISCO é uma marca com design autoral, cuja missão passa por criar peças contemporâneas, elegantes, divertidas e funcionais, com a capacidade de transformar e enaltecer qualquer look.
Como descreveria o ADN da PISCO em duas palavras?
A.R.P.: Autêntica e sofisticada.
Onde encontra inspiração para criar?
A.R.P.: A minha inspiração incide no quotidiano e nas referências de moda que consumo de grandes marcas. A atenção a tudo o que me rodeia e aos detalhes acaba por me inspirar, por vezes são formas, cores e até sons que ouço na rua.

Num mercado sempre em ebulição e em constante mudança, onde se fala tanto de desperdício têxtil e matérias-primas, a ideia de fundar uma marca de acessórios foi intencional?
A.R.P.: Sim, foi intencional. A criação de acessórios, na minha opinião, é uma alternativa mais sustentável ao vestuário, já que os consumidores tendem a não consumir tantos acessórios como roupas, que acabam por ter um maior desgaste. Além disso, os materiais utilizados pela marca são de qualidade.
Que materiais são utilizados nas peças?
A.R.P.: As matérias-primas utilizadas são maioritariamente de origem natural: peles genuínas, provenientes do fim do processo da indústria alimentar, tecidos 100% algodão
O algodão é uma das matérias-primas mais comercializadas ... ver mais... e deadstocks.
A par disso, em alguns modelos impermeáveis são utilizados tecidos com fibras sintéticas, uma vez que, sem isso, não seria possível garantir a impermeabilização dos têxteis. Relativamente ao forro, os modelos são produzidos em tecido 100% algodão
O algodão é uma das matérias-primas mais comercializadas ... ver mais....
Todos os materiais são adquiridos no comércio local.
Como é desenvolvido o processo de produção?
A.R.P.: A produção é totalmente artesanal. Todo o processo é elaborado por mim, desde os primeiros esboços até aos últimos pontos de costura de cada peça.
Onde podem ser adquiridas as peças da PISCO?
A.R.P.: As peças encontram-se disponíveis através das redes sociais da marca, nomeadamente no Instagram (@pisco.design) e no Facebook (PISCO DESIGN). A presença em eventos como o mercado Pla’ Arte, em Lisboa, permite também o contacto direto com o público. Para breve, está prevista a criação de uma loja online e a entrada em lojas físicas.


Que mensagem quer passar ao mercado da moda e aos consumidores através da PISCO?
A.R.P.: A mensagem que pretendo transmitir é que existe sempre espaço para marcas autênticas e que a moda nacional precisa disso, mas também de apoio. Aos consumidores, peço que consumam de forma consciente, apostando em peças de qualidade, com design interessante, que possuam longevidade e possam passar de geração em geração. Adquirir peças de designers, artistas e artesãos locais será sempre um bom investimento e uma aposta na sustentabilidade.
Sendo ainda uma marca recente, quais são os principais objetivos e em que mercados gostaria de entrar?
A.R.P.: O principal objetivo é que a PISCO se torne uma marca de referência em Portugal e, quem sabe, posteriormente fora do país. Gostaria que todas as pessoas olhassem para uma peça minha e a reconhecessem.
De que forma a sustentabilidade é implementada no conceito da PISCO?
A.R.P.: A sustentabilidade faz parte da marca e está presente em todo o processo: na escolha dos materiais, na valorização do comércio local e na manufatura, já que, através da produção em slow fashion
O conceito é o oposto da fast fashion, pois o movimento s... ver mais..., se adota também uma política de sustentabilidade social.
O que representou o convite de Dino Alves para integrar o desfile na ModaLisboa?
A.R.P.: Quando recebi o convite por parte de Dino Alves, foi um momento de pura felicidade e, ao mesmo tempo, de surpresa. Senti que o universo me recompensou por todo o trabalho desenvolvido.
Como atualmente trabalho como designer assistente do criador, apresentei-lhe toda a coleção, de modo a obter a opinião de uma referência na moda antes de lançar a PISCO. O feedback foi bastante positivo, mas não esperava que, cerca de cinco semanas depois, recebesse o convite. Já próximo do desfile, o Dino, ao ver a sua coleção, propôs-me utilizar os meus acessórios para complementar os looks.

Que impacto teve a presença na ModaLisboa?
A.R.P.: Estar na ModaLisboa foi inspirador… Deu-me motivação para continuar a criar e, sobretudo, aumentou a visibilidade da marca, gerando crescimento nas redes sociais, acesso a conteúdos fotográficos e presença na imprensa, além da oportunidade de conhecer novas pessoas relevantes para o percurso da PISCO.
O mundo atual enfrenta diversos desafios. A PISCO está preparada para esse contexto? Que conselhos deixa a quem quer criar a sua própria marca?
A.R.P.: O mundo está cada vez mais incerto, mas cabe-nos decidir se cedemos a essas dificuldades ou se seguimos os nossos sonhos. Eu escolhi a segunda opção e farei tudo o que estiver ao meu alcance para que a marca sobreviva às adversidades socioeconómicas.
Acredito que, em momentos de crise, as pessoas consumam menos, mas existe um público que procura qualidade e, quando falamos de peças de qualidade, não se trata de um gasto, mas sim de um investimento.
A quem pretende criar a sua marca, aconselho que avancem com as ideias e com os recursos que têm, porque a altura certa parece que nunca mais chega. O mais importante é a resiliência, pois é um processo longo e nem sempre fácil.

Como imagina a PISCO daqui a 5 anos?
A.R.P.: Daqui a cinco anos, imagino a PISCO implementada no mercado, com um posicionamento de destaque e uma rede sólida de clientes. Com uma produção mais elevada e, eventualmente, terceirizada para conseguir chegar mais facilmente a pessoas dentro e fora do país.
Autenticidade com visão de futuro
Um percurso que se constrói entre intenção, rigor e identidade, revela na PISCO mais do que uma marca emergente, mas uma visão consistente sobre o futuro dos acessórios de moda em Portugal. Entre o respeito pelo saber-fazer artesanal, a aposta em materiais conscientes e uma leitura atenta do quotidiano, o projeto afirma-se com uma linguagem própria e uma ambição clara de crescimento sustentado. Num momento em que a autenticidade ganha cada vez mais relevância, a PISCO posiciona-se como um exemplo de como criatividade e propósito podem convergir numa proposta relevante, preparada para evoluir sem perder a sua essência.










