Nuno Abrantes assina vestido de Clara de Sousa para a XXIX Gala dos Globos de Ouro

Na noite em que se celebrou o talento nacional, o designer Nuno Abrantes foi um dos destaques, ao desenhar o vestido da anfitriã da noite, Clara de Sousa. A criação reflete quatro meses de trabalho, entre tradição portuguesa e sofisticação sem exagero.

Na noite de 28 de setembro, o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, recebeu várias personalidades reconhecidas pelo público português, para a XXIX Gala dos Globos de Ouro, onde são premiados o trabalho, talento e dedicação de profissionais de diversas áreas, como o Desporto, Cinema, Teatro, Moda e Entretenimento.

Um dos pontos altos da noite, que antecede o início oficial da cerimónia, é o desfile de personalidades na passadeira vermelha e a curiosidade pelos detalhes dos looks escolhidos. Este momento fez aumentar a expectativa para o que iria vestir a anfitriã da noite, Clara de Sousa, que apresenta a Gala desde 2021.

Entre a música da orquestra e os primeiros aplausos da plateia, Clara de Sousa surge em palco com um vestido vermelho intenso e luminoso, que contrasta com os tons escuros do espaço. Os holofotes ajudam a ampliar uma imagem impactante, “uma presença poderosa, clássica e inesperadamente moderna”, tal como descreve Nuno Abrantes, que aos 37 anos torna-se o mais jovem criador de moda nacional a vestir uma anfitriã deste evento.

Foram quatro meses de trabalho para confecionar um vestido que nasceu da intuição de uma cor: o encarnado telhado, que o designer descreve como “uma cor vencedora, que Clara nunca tinha usado – comprei o tecido logo, antes mesmo de falar com ela”, revela Nuno Abrantes.

É aqui que entra toda a maestria, delicadeza e sofisticação do trabalho do designer nacional, ao criar uma silhueta trabalhada em tecido marrocã, num jogo de contrastes: numa exuberante parte superior estruturada, bordada à mão e que encontra na saia a fluidez necessária para criar movimento. O decote à barco é o contraste subtil, que revela sofisticação.

Não quis pensar em mim, mas nela. Quis mostrar uma nova Clara ao público, mais sofisticada e, ao mesmo tempo, mais ousada, sem cair em fórmulas já vistas de brilhos ou caudas exuberantes. Às vezes a elegância está no minimalismo.

Nuno Abrantes

A sofisticação sem exageros foi traduzida no bordado, longe do brilho óbvio que geralmente acompanha o efeito red carpet, assume-se como a verdadeira joia do look. Inspirado na tradição portuguesa – dos pontos de Castelo Branco às linhas de Viana do Castelo -, foi desconstruído e reinventado para uma leitura contemporânea. “Era importante trazer algo nosso, português. Um trabalho manual que dá tanto ou mais do que o brilho, mas com identidade e alma”, explica o criador nacional.

Na história dos Globos de Ouro, este será um vestido marcante e recordado. Mas, para o designer, o essencial está dito: a elegância não precisa de excessos. Está no detalhe, na memória, e nas infinitas possibilidades de reescrever a tradição. E nem Clara de Sousa ficou indiferente ao trabalho do criador nacional: “O Nuno tem uma criatividade rara, um profissionalismo absoluto e uma simpatia contagiante. É um nome promissor desta nova geração e merece, inteiramente, este destaque.”

Fiquei surpreendida, não só pela criação, mas pela forma como o Nuno leu a minha personalidade e conseguiu equilibrá-la com a sua assinatura. Senti-me muito confortável, muito representada, num vestido que é simultaneamente discreto e poderoso. A escolha da cor, os bordados manuais com uma portugalidade subtil e o corte estrutural fizeram-me sentir elegante, mas também segura, num momento de grande visibilidade. Foi, sem dúvida, uma experiência nova e especial, vestir esta criação.

Clara de Sousa

Mais do que um vestido, é um manifesto criativo entre o clássico e o moderno, o minimalismo e o detalhe, a tradição e a inovação. Para Nuno Abrantes este convite representa um momento de afirmação: “Sinto que estou a percorrer um caminho diferente do habitual em Portugal. Às vezes questionei-me se seria o certo, mas vestir a Clara prova que esse percurso está a dar frutos. Este vestido é um exemplo de como quero trabalhar no futuro: respeitar a tradição portuguesa, inovar no design e criar peças que contam histórias”, acrescenta o designer.

O criador nacional formado em História de Arte e Design de Moda e com atelier aberto desde 2019, tem ganho destaque através da criação sob medida e da sua visão distinta de vestidos de noiva, contudo, para o futuro, o designer pretende lançar uma coleção de pronto-a-vestir, pequena e seletiva, e investir no mercado internacional.