A peça mais democrática do guarda-roupa: a reinvenção das calças de ganga e o saber-fazer das marcas portuguesas

Dos trabalhadores de minas do século XIX às supermodelos das passarelas contemporâneas, as calças de ganga atravessaram gerações, subculturas e revoluções estéticas para se afirmarem como a peça mais democrática do guarda-roupa.

Meshmess | Conscious | Salsa Jeans

Dos trabalhadores de minas do século XIX às supermodelos das passarelas contemporâneas, as calças de ganga atravessaram gerações, subculturas e revoluções estéticas para se afirmarem como a peça mais democrática do guarda-roupa. Por detrás do seu estatuto intemporal, esconde-se, contudo, uma das cadeias de produção mais poluentes da moda: intensiva em água, energia e químicos.

Neste artigo, exploro a origem utilitária das calças de ganga, analiso o seu impacto ambiental e apresento soluções concretas, desde a escolha informada do consumidor ao upcycling como motor da economia circular. Neste sentido, o destaque vai para a Vortex, uma marca portuguesa que reinventa peças de ganga que seriam descartadas, em criações únicas. Em Portugal, existem marcas que se destacam no desenvolvimento desta peça e que mantêm as calças de ganga no centro da moda contemporânea e há três que têm destaque neste artigo: Conscious the Label, Meshmess e Salsa Jeans.

Uma breve história sobre a origem do denim
(ganga)

O termo “jean” (jeans = calças de ganga) surge no século XIX a partir do francês, ligado ao tecido de sarja de algodão produzido em Nîmes, o “serge de Nîmes”, que originaria o termo denim (ganga).

As calças de ganga modernas, em denim tingido com índigo, reforçadas com rebites de cobre, foram patenteadas em 1873 por Jacob Davis e Levi Strauss, destinadas a mineiros e operários. O modelo 501, lançado em 1890, consolidou o denim azul e a marca Levi´s como referência global. Com o fim da patente, marcas como Lee e Wrangler expandiram o mercado, e a ganga passou do vestuário utilitário ao imaginário popular.

Getty Images

A ganga começou a popularizar-se com uma ajuda de Hollywood, através de filmes de cowboys com John Wayne e Gary Cooper como protagonistas, e mais tarde, nos anos 1950, ícones como Marlon Brando e James Dean, associaram a ganga à rebeldia juvenil.

No público feminino, através do cinema, atrizes conceituadas como Marilyn Monroe e Farah Fawcett levaram as calças de ganga a um patamar que combinava empoderamento e sofisticação. Por outro lado, revistas como Vogue, popularizaram a peça entre mulheres e os movimentos hippies, anti-guerra e feministas adotaram-na como símbolo de contestação e igualdade.

Nos anos 1970 e 1980, a ganga entrou na alta-costura: Calvin Klein levou calças de ganga à passarela e campanhas ousadas redefiniram o seu apelo sensual. Versace, Dolce & Gabbana e Dior consolidaram a peça como transversal ao luxo. Fora das passarelas, no final dos anos 80, a princesa Diana revolucionou a moda da realeza europeia, e uma das peças em destaque foram as calças de ganga.

Atualmente, existem diversas variações de modelo: oversized, straight, cintura alta ou lavagens escuras coexistem, refletindo tribos, gerações e tendências. Como dizia Yves Saint Laurent, a ganga reúne “expressão, modéstia, apelo sexual e simplicidade, qualidades que a tornam eterna”.

O impacto ambiental das calças de ganga

A confeção de calças de ganga tem um custo ambiental elevado, desde o cultivo do algodão até ao descarte. Na FashionHub Portugal reunimos alguns dos principais desafios e problemas desta produção, considerando alguns tópicos essenciais com números que possibilitam uma melhor compreensão.

  • Cada par de calças de ganga consome entre 5.000 e 10.000 litros de água (dados da ONU), grande parte devido à irrigação intensiva do algodão, frequentemente acompanhada de pesticidas e fertilizantes que degradam solos e aquíferos.
  • Durante a produção, para se obterem tingimentos e efeitos desgastados recorre-se a químicos agressivos. Um estudo da Universidade de Xintang, na China, detetou metais pesados como cádmio, crómio, mercúrio e chumbo em rios próximos a fábricas de produção de ganga. Em termos globais, estima-se que 70% dos rios asiáticos sofram contaminação têxtil.
  • Um par de jeans gera cerca de 33 kg de CO₂. As calças de ganga de fast fashion têm pegada até 99% superior, sendo usadas em média apenas sete vezes, contra 120 utilizações em peças mais duráveis.
  • Misturas de algodão com elastano ou poliéster libertam microplásticos durante a lavagem e dificultam (podendo mesmo inibir) a reciclagem. Estes materiais podem demorar centenas de anos a decompor-se.
  • A lógica da moda rápida leva a descarte precoce, reforçando o impacto ambiental da indústria têxtil, uma das dez mais poluentes do mundo.

Medidas para minimizar o impacto ambiental: das marcas aos consumidores, em prol da economia circular

Para os desafios ambientais apresentados anteriormente, marcas e consumidores devem encontrar métodos de produção e cuidados com as peças, respetivamente, de forma a  soluções que minimizem esse impacto.

Em termos de tecnologia e inovação, algumas fábricas e empresas de moda começam a apostar em sistemas de lavagem a laser ou ozono, sistemas e-flow e tratamento fechado de efluentes, que permitem reduzir a quantidade de água e químicos, tornando a produção mais sustentável.

Além disso, as matérias-primas selecionadas passaram a ser o algodão orgânico ou regenerativo, que minimiza pesticidas e existe uma aposta nas fibras mono-material, com o objetivo de facilitar o processo de reciclagem, prolongando a vida útil da peça.

Para sustentar os princípios da economia circular, entram em ação os conceitos segunda mão e upcycling. A compra e venda de peças de ganga usadas diminui emissões e consumo de água, mas além das atuais plataformas de venda online e as tradicionais lojas vintage ou lojas de rua especializadas em segunda mão, também as marcas podem dar uma ajuda aos consumidores e começar a implementar formas de integração de peças usadas num portefólio de produtos para serem reutilizados por outras pessoas.

O upcycling transforma peças existentes em novos produtos, preservando o material original, por exemplo, umas calças de ganga que rasgaram no joelho sem solução eficaz, podem tornar-se uns calções.

Apesar de, por vezes, significar um grande investimento para as marcas, o presente passa por uma aposta na otimização dos serviços de apoio ao cliente para incentivar uma mudança nos hábitos de consumo, através de estrutura para recolha de peças usadas; recolha de artigos para serem integrados em processos de reciclagem; melhor gestão do stock para evitar desperdício; disponibilizar serviços de arranjos para roupa e calçado; promover workshops de costura, upcycling…

O caso da Vortex, uma marca portuguesa de upcycling

A marca portuguesa Vortex, fundada em 2024 por Catarina Amaro, exemplifica esta abordagem ao trabalhar com deadstock e peças de ganga em segunda mão. Através desta matéria-prima recria saias, casacos e camisolas à mão no seu estúdio, sem recorrer a fábricas. A marca distingue-se pela sustentabilidade e irreverência, cada peça é exclusiva, artesanal e sustentável, mostrando que reaproveitar materiais que seriam descartados e, provavelmente, acabariam num aterro pode ser elegante e criativo.

Cuidados e consumo consciente

  • Ler a etiqueta de composição e evitar matérias-primas como elastano e poliéster.
  • Comprar menos e melhor, privilegiando durabilidade.
  • Priorizar segunda mão e upcycling.
  • Reparar, reutilizar ou doar antes de descartar.
  • Lavar do avesso, a baixa temperatura, e evitar máquina de secar.

Nota: As calças de ganga podem ser usadas, em média, entre 3 a 10 vezes antes de uma lavagem, tendo em consideração odores intensos e nódoas visíveis.

Estilo e intemporalidade: como usar calças de ganga

A moda celebra silhuetas contrastantes, como baggy, wide leg, straight ou vintage; em tonalidades mais escuras ou tom de ganga de lavagem branqueada, que reforçam um toque polido.

A cintura subida domina as tendências, equilibrada com tops minimalistas ou camisas oversized: uma t-shirt branca e calças de ganga continua a ser uma das combinações mais sofisticada e intemporal.

Para um combinações mais sofisticadas, as calças de ganga podem ser combinadas com peças em lantejoulas, um blazer estruturado, sapatos clássicos e acessórios metálicos, o que cria contraste entre casual e sofisticado.

As indumentárias que exploram a ganga da cabeça aos pés, ou seja, conjuntos calças/saia/calções de ganga com casaco/camisa de ganga, coordenando tons ou misturando lavagens, continuam a reinventar cada peça clássica.

Marcas portuguesas em destaque

Conscious the Label

A Conscious the Label é reconhecida pelos seus biquínis e fatos de banho, mas desde que a marca se dedica à produção de vestuário, há uma peça que sobressai e se encontra diversas vezes esgotada no website oficial da Conscious: as calças de ganga 100% algodão orgânico, confecionadas em Portugal numa cadeia de produção de pequena escala e distribuída em embalagens ecológicas.

A marca integra materiais reciclados, como ECONYL® e reciclada, e planeia um sistema de recolha para reciclar peças usadas. As calças de ganga da Conscious the Label têm o caimento perfeito e são sinónimo de conforto, estilo e responsabilidade ambiental, disponível em três tonalidades: azul, preto e castanho.

Podes verificar o produto em consciousthelabel.com.

Meshmess

A Meshmess é uma marca portuguesa que se destaca pela inovação e sustentabilidade, prova disso mesmo é a criação mais icónica da marca: as Flex One, calças 100% algodão, são de tamanho único (34-44), produzidas em Portugal a partir de excedente têxtil e sem elastano, o que promove moda inclusiva e sustentável. O design é unissexo e adapta-se a diferentes corpos, incluindo grávidas e pós-parto, enfatizando durabilidade e consumo consciente.

As flex one foram distinguidas como um dos produtos inovadores finalistas na edição 2025 dos iTechStyle Awards promovidos pelo CITEVE.

Podes verificar o produto em meshmess.com.

Salsa Jeans

Quando o assunto são calças de ganga, talvez uma das primeiras marcas que nos vem à cabeça seja a Salsa Jeans. A marca nasceu em 1994 e rapidamente expandiu a produção e vendas pelos quatro cantos do mundo, tornando-se uma referência portuguesa além-fronteiras. Depois de diversos modelos intemporais e que se destacam no guarda-roupa de milhares de pessoas, a Salsa Jeans percebeu que tinha de trabalhar a sustentabilidade ambiental da marca:

  • Grande parte da produção acontece numa unidade industrial localizada em Ribeirão, Vila Nova de Famalicão.
  • Investimento de 7 milhões de euros na sua fábrica em Ribeirão para aumentar a eficiência energética e modernizar os processos de lavandaria e tinturaria.
  • Em janeiro de 2025, a Salsa Jeans lançou a coleção ‘Now & Then: A Life in Denim’: calças e outras peças de ganga 96% biodegradável, feita com materiais orgânicos e botões compostáveis.
  • O programa Become organiza sustentabilidade em seis áreas: água, energia, resíduos, circularidade, rastreabilidade e pessoas, com metas mensuráveis.
  • Processos como Betterwash® reduzem água e químicos, enquanto o programa Infinity promove reparação e recolha de peças, prolongando o ciclo de vida das peças de ganga.

Podes verificar o produto em salsajeans.com.

As calças de ganga continuam a ser um símbolo de versatilidade, identidade e estilo, mas hoje é também uma oportunidade de consumo responsável. Entre inovação tecnológica, economia circular e escolhas individuais, o futuro das calças de ganga (e da moda em geral) depende da informação, ação e criatividade de cada um de nós.